quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Tecnologia brasileira desvenda segredos das obras de arte


A imagem de São Sebastião do Rio de Janeiro, considerada a segunda obra de arte sacra mais antiga do Brasil, está pronta para começar a ser restaurada.

O trabalho será feito graças a uma tecnologia de ponta, um sistema portátil de fluorescência de raios X, desenvolvido pela pesquisadora Cristiane Calza, da Coppe/UFRJ, no Rio de Janeiro.

A técnica, que permite identificar os pigmentos usados na época da execução da obra, possibilitará a recuperação das características originais da peça trazida de Portugal para o Brasil em 1567 e entregue em 1842 pelo governo imperial aos cuidados dos frades capuchinhos, que a mantêm na igreja da ordem, na Tijuca.


Fluorescência de raios X

O sistema portátil de fluorescência de raios X é capaz de identificar a época em que um quadro foi pintado, a composição de cores utilizada pelo artista, a existência de retoques e possíveis falsificações.

Os dados são obtidos no próprio local onde a obra está instalada e de forma não destrutiva, já que o aparelho fica a alguns centímetros de distância do objeto de arte, eliminando assim riscos de danos e mantendo a integridade da obra.

Outra vantagem da técnica é a versatilidade. O sistema permite analisar vários tipos de amostras, como biológicas, ambientais, minerais e de arqueometria.

É possível identificar, por exemplo, além da composição, a procedência e o período histórico de artefatos arqueológicos, suas técnicas de manufatura e, ainda, revelar falsificações, a partir de uma análise dos elementos químicos que constituem os artefatos.

O sistema portátil é fruto de quatro anos de pesquisa, que resultou na tese de doutorado defendida por Cristiane, em 2007, no Programa de Engenharia Nuclear da Coppe, sob a orientação do professor Ricardo Tadeu Lopes.


Radiografia computadorizada

Associado à técnica de radiografia computadorizada, que contou com a colaboração dos pesquisadores da Coppe, Davi Oliveira e Henrique Rocha, o sistema portátil de fluorescência complementa as informações obtidas a partir das análises.

Além da precisão e rapidez na obtenção dos dados - itens valiosos para o restauro de uma obra -, o fato de o sistema ser portátil, dispensando a locomoção de um quadro como "Primeira Missa no Brasil", que mede 2,68 x 3,56 metros e está avaliado em R$ 6 milhões, foi um verdadeiro alívio em termos de economia e segurança para os dirigentes do museu.

"Grande parte das técnicas utilizadas, tanto no Brasil como no exterior, exige que a obra seja enviada a laboratórios ou locais específicos para ser analisada. Essa condição muitas vezes inviabiliza a realização do trabalho, seja no caso de um quadro de grandes dimensões ou de alto valor artístico-cultural que precisaria de todo um esquema especial de segurança e transporte," afirma.

Não é por acaso que o equipamento vem despertando grande interesse por parte de restauradores, dirigentes de museus e instituições de pesquisa, dentro e fora do País.


A eficiência da tecnologia - que possibilita identificar a época e a composição das cores de uma obra de arte, assim como posteriores retoques e possíveis falsificações -, aliada à praticidade do sistema portátil, que dispensa o deslocamento da obra, tem conquistado a preferência dos especialistas.


Teste de equilíbrio

O sistema desenvolvido por Cristiane, sob a orientação do professor Ricardo Tadeu Lopes, também foi recentemente aplicado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Em dezembro de 2009, a pesquisadora analisou a pintura decorativa de Henrique Bernardelli, no teto das rotundas, e três painéis decorativos pintados por Eliseu Visconti no teto do foyer do teatro.

"Foi um teste de equilíbrio. Tive que subir com o equipamento na mão, por meio de escadas e andaimes, para analisar pinturas em locais com altura simular a de um prédio de três andares", conta a pesquisadora, em tom de brincadeira.

O altar da capela-mor do Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, também passou pelo crivo do sistema de fluorescência de raios X.

Com base na análise dos pigmentos originais, Cristiane observou que a talha, originalmente recoberta com folhas de ouro, tinha sido recoberta com tinta comercial, o que facilitará o trabalho dos restauradores na recuperação do dourado original da peça.

Foram analisados também os pigmentos dos painéis pintados sobre madeira, nas paredes laterais e no teto da capela-mor, que retratam os milagres de Santo Antônio.

O sistema foi utilizado pela primeira vez na recuperação do quadro "Primeira Missa no Brasil", de Victor Meirelles, que faz parte do acervo do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA).

A proximidade com o universo da arte mudou a rotina da pesquisadora da Coppe. Hoje, sua agenda alterna entre dias dedicados ao laboratório, na Coppe e as imersões nos museus. Em junho deste ano, a pesquisadora voltou ao Convento de Santo Antônio, onde passou 15 dias aplicando a técnica em 13 imagens sacras do período barroco, que também serão recuperadas. ( da coppe-ufrj ).



Um comentário:

linkpremiadoblog disse...

Seu post já foi publicado!
Atenciosamente.
Antoani/Equipe Link Premiado
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