Nos
grandes leilões de vinhos, safras especiais em garrafas magnum (1,5 l) são
vendidas por muito mais do que o dobro do preço de uma garrafa normal. E são um
item muito procurado, mesmo que o prazer resida somente no tamanho e na maior
quantidade de líquido que armazenam.
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| Recipientes para armazenar vinho passaram da ânfora para as garrafas de vidro,
que antes tinham diversos formatos |
CADA GARRAFA UMA TAMPA
Um
problema que atormentava os produtores de vinho desde a antiguidade era a
maneira de vedar os vasilhames (de barro ou cerâmica). Eles ainda não entendiam
cientificamente o processo da oxidação, mas já haviam percebido que recipientes
mais bem fechados conservavam o vinho por mais tempo.
A utilização das
rolhas, mesmo no distante século XVII, já era popular na Espanha e em Portugal,
mas encontrou resistência nos outros países europeus. Os ingleses, reconhecidos
como os inventores da garrafa moderna, utilizavam uma rolha também de vidro, que
consideravam mais higiênica, mas, com o passar dos anos, descobriu- se que
garrafa de vidro e rolha de cortiça eram a melhor combinação para preservar e
transportar os vinhos. É interessante notar que, no começo do século XVIII, a
única coisa que diferenciava as embalagens de vinho das atuais era o fato de que
a maioria das garrafas não eram cilíndricas.
A Revolução Industrial, no
entanto, além dos avanços científicos nos estudos da composição dos vinhos e da
fermentação, marcou época e trouxe a produção de vinhos e garrafas para uma nova
fase, mesmo que os custos envolvidos fossem enormes. "Fazer garrafas de
qualidade nunca foi barato", explica Paulo Dias, gerente comercial da Verallia,
que fabrica mais de 60 tipos de garrafas no país. Ele conta que a implantação de
um novo forno custa hoje 80 milhões de euros e é um processo que não se modifica
muito qualquer que seja o país onde o forno esteja instalado. "Um bom forno dura
10 anos em funcionamento contínuo e suporta 1.600oC em sua parte interna",
completa Dias.
A Verallia faz parte do grupo Saint Gobain, uma empresa
francesa fundada em 1665, que fabricou desde os espelhos do Palácio de Versalhes
até as placas de vidro que recobrem a pirâmide do Museu do Louvre em Paris.
Presente em 64 países, ela disputa espaço com a Owens Illinois, empresa
norte-americana fundada por Michael Owens, que criou, em 1903, a primeira
máquina automática para produção de garrafas, revolucionando a indústria. No
Brasil, essa empresa é da proprietária da Císper.
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| Composição do vidro |
FORMA E FUNÇÃO
Os formatos
atuais das garrafas de vinho evoluíram pouco nos últimos 100 anos, a não ser
pela adoção da tampa de rosca (que modifica o gargalo e sua interação de
resistência com o pescoço da garrafa) e pelas pesquisas e lançamentos de
garrafas mais leves, que geram menor impacto no meio ambiente.
O diretor da
Associação Brasileira de Enologia, Marcos Vian, explica que a função primária de
armazenamento estéril e estanque de um vinho que a garrafa proporciona, quase
nunca é percebida pelo consumidor final. O que é levado em conta é o peso da
garrafa (que no Brasil ainda é sinônimo de vinho mais estruturado e de melhor
qualidade), a limpidez do vidro e até seu formato: "As garrafas mais alongadas e
transparentes costumam fazer mais sucesso com o público feminino, enquanto as
garrafas de ombros mais acentuados remetem aos vinhos mais tradicionais", conta
o enólogo.
Essa percepção do consumidor é tão importante para o marketing das
vinícolas que chega a influenciar a escolha das garrafas de forma quase
contrária à sua função: "Do ponto de vista puramente técnico, não colocaríamos
vinhos rosés ou da uva Sauvignon Blanc em garrafas brancas, pois, nas coloridas,
eles ficariam protegidos da luz, que acelera sua deterioração. Mas o mercado
consumidor responde muito melhor às garrafas transparentes", afirma Vian.
O
teste do tempo e a tradição, ao mesmo tempo, fizeram com que alguns formatos de
garrafas ficassem conhecidos pela região na qual são usados, como é o caso da
garrafa bojuda de Chianti, que evoluiu do "fiasco toscano", em sua forma
original uma garrafa frágil e fina, que ganhava resistência ao ser envolvida em
palha ou vime.
Na Alsácia, há uma lei que determina que seus vinhos sejam
engarrafados no modelo conhecido por lá como flûte, mas que, no exterior, leva o
nome da própria região. Com um modelo também alongado e muitas vezes na
coloração âmbar, são tradicionais as garrafas do modelo Renano, para os vinhos
brancos das regiões do Mosel e do Reno, na Alemanha, enquanto a região da
Francônia é reconhecida nas garrafas baixas e arredondadas, de pescoço
curto.
Para os vinhos espumantes, as garrafas precisam ter paredes mais
espessas e concavidade no fundo, para suportarem a pressão do líquido, seja
quando a segunda fermentação ocorre na garrafa ou no método Charmat, em que o
envase também ocorre com alta pressão. É precisamente por sua forma ser tão
particular para sua função que essas garrafas são, atualmente, as que vêm
impondo o maior desafio técnico para as empresas que necessitam desenvolver
vasilhames mais leves, mais sustentáveis.
VARIADOS TERROIRS, GARRAFAS
IDÊNTICAS
Os formatos conhecidos como Bordalesa (Bordeaux) e
Borgonhesa (Borgonha), a primeira de ombros mais altos e mais marcados e a
segunda mais alongada e bojuda em baixo, são as garrafas mais populares no
mundo. São fabricadas em variadas cores e foram os primeiros formatos utilizados
nas garrafas ecoeficientes, que são mais leves.
As leis locais não ditam que
os vinhos franceses tenham que ser engarrafados nesses modelos, mas as tradições
locais sim. Tanto que é possível encontrar brancos e tintos nos mesmos formatos
de garrafas somente com variação de cor, em suas regiões de origem.
Os vinhos
fortificados costumam ser apresentados em garrafas mais estruturadas, de
formatos mais retilíneos e, por vezes, bem mais escuras, como as de Vinho do
Porto, tradicionalmente quase negras. Seu formato favorece um longo
armazenamento nas caves.
Até o começo do século passado os volumes de líquido
variavam bastante e as garrafas conhecidas como padrão nem sempre continham 750
ml de vinho. Felizmente isso mudou e uma padronização tomou conta da indústria.
Atualmente, os modelos de 187 ml são conhecidos com o nome italiano de piccolo,
as de 350 ml são as demi ou meia-garrafa, as de 750 ml são as garrafas padrão e
as de 1,5 l são as Magnum.
Esses volumes são os mais fáceis de serem
encontrados. No entanto, também são comuns as garrafas conhecidas como Jennie,
com capacidade para meio litro, muito usuais para os vinhos de sobremesa, que
variam bastante em formato.
Um dos mistérios da história do vinho é a
perpetuação dos nomes da garrafas de grandes formatos, como a Jeroboam (ou
Magnum Dupla), a Matusalém (capacidade de 6 litros), a Mordecai ou Salmanazar
(de 9 litros), a Baltazar (de 12 litros), a Nabucodonosor (de 15 litros) e, por
fim, a Melquior (de 18 litros) e a Salomão (de 20 litros), esta somente
utilizada para Champagnes. Os nomes bíblicos dos reis do Velho Testamento e dos
reis Magos dados à essas garrafas e reconhecidos em todo o mundo permanecem um
desafio aos historiadores, incapazes de descobrir quem ou por que foram assim
batizadas (
revista adega ).