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domingo, 12 de fevereiro de 2012

É época de colher as uvas


Toda vez que viajamos, comer, beber e visitar as atrações locais estão entre os prazeres mais apreciados pelas pessoas, seja lá qual for o tipo de turismo que elas pratiquem (rural, cultural, aventura, religioso etc).
Mas uma boa parte dos turistas de hoje não está apenas à procura de uma bela praia selvagem, muitos desejam se hospedar nas casas simples dos pescadores locais, enquanto outros, que vão às grandes cidades, dispensam os passeios coletivos para andar de metrô, conhecer restaurantes de bairros afastados e "desaparecer na paisagem".

Os estudiosos de turismo dizem que essa prática é chamada de "turismo dos sentidos", que une valores locais e humanos, além de uma paisagem singular. O doutor em antropologia e professor de enoturismo da universidade de Rioja, na Espanha, Luis Vicente Elias Pastor, explica melhor: "Vivemos em espaços menores, estudamos mais, lutamos para ganhar a vida e estamos constantemente conectados com o mundo, mas ao mesmo tempo mais distantes dele, por isso, quando saímos de férias, muitos de nós precisam se reconectar com a natureza, ou com as experiências que nos faltam na rotina diária, por isso o turismo dos sentidos".


No Brasil e fora dele


Até bem pouco tempo, visitar as cantinas onde se produz o vinho era uma experiência para poucos, mesmo na Europa. Era necessário ter algum conhecido no meio, fazer uma reserva com meses de antecedência ou simplesmente parar numa estrada poeirenta e tirar uma foto distante.


Felizmente, uma série de fatores (entre eles a crise e o glamour associado ao mundo do vinho) fez com que as vinícolas abrissem suas portas e transformassem aquilo que era, em muitos casos, uma simples lojinha, em um empreendimento para receber e orientar os turistas.

Atualmente, é possível visitar pequenas e grandes empresas vinícolas no mundo todo, até mesmo em locações supertradicionais como os produtores de Champagne, ou passar um dia aproveitando as belezas de uma vinícola à beira do mar na Austrália.

No entanto, no enoturismo, o equivalente da casa do pescador ou do metrô de Berlim é passar um dia colhendo uvas e observando o processo que transforma o mosto em vinho.

Para os verdadeiros amantes do vinho, não basta conhecer as instalações de uma vinícola e provar diretamente das barricas, é necessário também sujar as mãos. E o calendário brasileiro não poderia ser mais generoso com os enoturistas, pois a época da colheita coincide com o final de nossas férias de verão, estendendo-se durante o Carnaval, até o começo de março (isso no Rio Grande do Sul, pois em Santa Catarina as uvas são colhidas ainda mais tarde, e em alguns anos até mesmo em maio).

Assim, prepare as malas, aproveite as passagens mais baratas e prepare-se para ter seu dia de vinhateiro com as sugestões que ADEGA reuniu.


Vinícolas e roteiros


Para quem chega de avião em Porto Alegre, o ideal é alugar um carro e seguir para Bento Gonçalves, ou combinar com o hotel para que um motorista vá lhe buscar na cidade. Esse percurso leva, em média, 1h20.


Ao chegar em Bento Gonçalves, é fácil perceber que essa é uma época festiva, pois a cidade está cheia de opções dentro do programação oficial "Bento em Vindima": "O período da vindima é nosso diferencial, o turista pode participar de muitas atividades, como colher e pisar a uva, jantar sob às estrelas, fazer cursos de degustação, participar de filós e, neste ano, até mesmo de um ciclo de cinema, seguido de debate e jantar harmonizado. É uma nova proposta de turismo para o verão brasileiro, e que oferece uma experiência e uma vivência única ao participante", conta Ivane Fávero, Secretária de Turismo da cidade.

Com tudo preparado para a vindima, as hospedagens disponíveis também entram no clima. Quem escolher ficar na Villa Valduga, pousada dentro do complexo da Casa Valduga no Vale dos Vinhedos, encontrará um roteiro completo para antes e depois da Festa da Vindima, que acontecerá todos os sábados até o dia 10 de março. A programação inclui desde um café da manhã sob o parreiral, a colheita e a pisa das uvas, degustações e refeições harmonizadas, visitas à unidade de vinificação e às caves, além de outras atividades que ocupam todo o dia. É possível, também, fazer o programa da colheita em separado, sem se hospedar (veja mais informações no box). Qualquer que seja a escolha, é diversão garantida para famílias e apaixonados por vinhos.

Ainda dentro do Vale, um programa excelente e um pouco mais curto é participar do Dia da Colheita na Pizzato, acompanhados do proprietário Plínio Pizzato, que explica tudo sobre os vinhedos e a colheita, ao mesmo tempo em que os turistas em seus chapéus de palha provam e colhem as uvas que irão poder pisar depois, enquanto se refrescam com uma taça de espumante. O passeio fica completo com a visita à cantina onde são feitos os vinhos, com o acompanhamento do enólogo e com um almoço harmonizado.

A sede da Miolo no Vale também tem um dia especial, que neste ano será em março, em que um pequeno grupo é recebido pelos enólogos para conhecer em detalhes os processos de vinificação. É o Wine Day Miolo, uma espécie de curso que mostra ao participante, com interatividade, todas as fases da preparação de um vinho, tanto que cada uma das unidades produtoras do grupo no Rio Grande do Sul o faz em uma data diferente e com um estilo de vinho. Na Campanha Gaúcha, na Seival Estate (em Candiota), o curso será sobre tintos e, na Almadén (em Santana do Livramento), o curso será sobre vinhos brancos. A programação também acontece na vinícola Lovara, em Bento Gonçalves, com vinhos tintos.


Participar da colheita é uma experiência única e pode ser vivida em todos os seus detalhes durante a vindima no sul do Brasil


Colhendo e degustando


A Lovara Vinhas e Vinhos, que faz parte do grupo Miolo, também terá uma programação nova, estreando este ano, em parceria com a rede Dall'Onder. É a Colheita ao Luar. Duas vezes por semana os hóspedes poderão pegar o transfer de um dos três hotéis da rede na cidade e ser recebidos na vinícola para participar do tradicional processo de colheita e pisa da uva, seguido de uma degustação harmonizada de oito vinhos e espumantes com queijos e outros petiscos. No frescor das noites do sul, os grupos poderão optar por fazer a degustação na varanda com vista para os vinhedos iluminados da Lovara, na rústica casa de pedra que preserva traços da imigração italiana ou no deck ao lado do açude, em meio às vinhas.


Para uma opção que combina luxo e atividade de campo, a escolha pode ser a Festa da Colheita no Hotel e Spa do Vinho, o mais elegante dentro do Vale dos Vinhedos. Por lá a programação matutina inclui a colheita nos parreirais que circundam o hotel, a pisa das uvas e um almoço típico ao ar livre com a apresentação de um coral italiano. E para quem preferir passar o dia nos tratamentos do Spa (que nesta época de colheita incluem até massagem e esfoliação com cachos de uvas) existe a opção de um jantar temático italiano com harmonização com os vinhos do Vale.

PARA UMA BOA COLHEITA
1. Use protetor solar e um chapéu ou boné, a colheita é feita (a maior parte das vezes) em horas bem quentes do dia sob o sol (ou mormaço) do verão;
2. Insetos são comuns nos vinhedos, por isso não deixe de usar uma generosa quantidade de repelente para não se incomodar durante a melhor parte do passeio;
3. Hidrate-se, e não apenas com vinho, o calor e a atividade física sob o sol desidratam o corpo rapidamente;
4. Use roupas confortáveis e frescas, que permitam que você se mova com desenvoltura. Tênis são os calçados mais indicados.


Quem quer apenas passear e degustar, mas sem a obrigação de colher uvas, neste ano as opções são variadas e vão além das 30 vinícolas abertas à visitação no Vale dos Vinhedos. Na região de Pinto Bandeira (um distrito de Bento Gonçalves), é possível conhecer algumas das casas que fazem espumantes muito especiais, como a Don Giovanni, que tem uma agradável pousada e todo o capricho gastronômico da proprietária Beatriz Dreher e de sua filha Paola D. Giovannini: "Presenteamos nossos hóspedes com um kit da vindima, que contém uma bolsa exclusiva de palha, luva para a colheita e toalhinha. Também colocamos mapas indicando quais os parreirais que eles poderão colher as uvas se assim quiserem e as uvas estiverem na maturação correta. Criamos ainda um minidicionário, mostrando para o público algumas palavras usadas na safra, desde os tempos dos imigrantes italianos, valorizando a cultura da região da Serra Gaúcha.


Também é uma maneira carinhosa que encontramos de presentear nossos hóspedes neste momento tão especial do ano", explica Paola.


Na quase vizinha vinícola Valmarino, a opção é o "merendin", um típico lanche italiano que será servido após a visita à pequena vinícola e seus vinhedos e que inclui frios, biscoitos, suco e espumante, tudo com a linda vista das montanhas de Pinto Bandeira.

Há opções para todos os gostos com hospedagens em lugares mais singelos ou então em luxuosos hotéis de padrão internacional

Já no roteiro das Cantinas Históricas no distrito de Faria Lemos, vale agendar uma visita a Dal Pizzol para conhecer o "Vinhedo do Mundo", uma área de cultivo com parreiras dos quatro cantos da terra, quase todas produzindo nesta época e, no mesmo caminho, parar para um fim de tarde na Vinícola Cristófoli, que oferece o edredom no parreiral para quem quer relaxar com música, fruta, frios e vinho, sob a sombra das vinhas. ( da Revista Adega ).

Com tantas opções, ninguém vai precisar se preocupar em levar o saca-rolhas nessa viagem.
INDICAÇÕES ADEGA
Festa da Vindima na Casa Valduga
www.villavalduga.com.br, reservas@villavalduga.com.br ou (54) 2105 3154
Dia da Colheita Pizzato
vendas@pizzato.net ou (54) 3459 1155 ou www.pizzato.net
Miolo Wine Day no Vale dos Vinhedos, na Lovara em Bento Gonçalves, na Almadén em Santana do Livramento e na Seival Estate em Bagé
thais@miolo.com.br ou (54) 2102 1574
Colheita ao Luar (Lovara/Dall'Onder)
www.dallonder.com.br ou 0300 147 3000
Festa da Colheita Hotel e Spa do Vinho
reservas@spadovinho.com.br ou (54) 2102 7200
Pousada Don Giovanni
www.dongiovanni.com.br
Vinícola Valmarino
(54) 3452 2135
Vinícola Cristofoli
www.vinhoscristofoli.com.br ou (54) 3439 1190

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Uma seleção com os melhores vinhos de 2011

A revista Adega selecionou os 100 melhores vinhos de 201, degustados por equipe nos últimos meses. VEJA AQUI , numa adptação do blog, utilizando o TwitDoc, a relação.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Champagne Grand Cru


Muito antes da mais aristocrática e charmosa bebida do mundo, o Champagne, nascer, a região da Champagne, onde é produzido o vinho, já era palco de eventos célebres e sinônimo de luxo. Os reis da França, por exemplo, eram coroados na majestosa catedral de Reims desde muito antes de 1718, data dos primeiros registros sobre esse maravilhoso vinho. Reims até hoje é a cidade mais importante da região de Champagne. Aliás, é bom enfatizar que os únicos espumantes do mundo que podem ser chamados de Champagne são os que "nascem" nessa região, no Vale do Rio Marne.
A história concede ao monge Dom Pérignon o "invento" dessa bebida que a cada dia se consagra como a mais elegante e sinônimo de celebração do planeta. Antes disso, a região de Champagne era conhecida como uma zona de produção de lã de qualidade. Foi somente no século XI que ela começou a entrar no mapa como uma potencial região produtora de uvas viníferas. Na ocasião, o filho de um viticultor de Châtillon-Sur-Marne foi eleito Papa com o nome de Urbano II. Ele foi um grande impulsionador dos vinhos de sua terra natal. Em Roma, o Papa não escondia sua preferência pelos vinhos da sua região e fazia questão de promovê-los. Nessa época, contudo, o vinho de Champagne não era ainda o Champagne que séculos mais tarde encantou o mundo.
Do Papa ao mongeA saga do Champagne, o vinho com as mágicas bolhas, começa em 1639, aproximadamente seis séculos depois de Urbano II, quando nasce Pierre Pérignon. Filho de um oficial das cortes regionais, ele poderia seguir os passos do pai, mas, aos 13 anos vai para um colégio jesuíta em Châlons-Sur-Marne e descobre sua verdadeira vocação. Quando esse monge beneditino, com quase 30 anos, chega à Abadia de Hautvillers, ao norte de Epernay, além da adesão estrita às regras de São Benedito, inicia uma devoção para a melhoria dos vinhos da região; e só por isso já merece seu lugar na história.
Sua visão, na época, era quase de um revolucionário, pois introduziu práticas como poda controlada, baixo rendimento das parreiras e colheita cuidadosa. Pierre era um especialista em vinhos brancos e tintos, mas sua consagração veio após sua morte, quando Dom Grossard, tesoureiro da Abadia de Hautvillers, inicia a divulgação de que o monge Dom Pérignon foi quem "inventou" o Champagne.
Um grande apaixonado por Champagne foi o rei Luís XIV, o "Rei Sol". Ele provou a bebida pela primeira vez aos 16 anos em Reims, durante sua coroação e, a partir daí, elegeu o Champagne como sua favorita. Mais recentemente, o Champagne ganhou um grande admirador e fã confesso. Sir Winston Churchill, primeiro-ministro inglês durante a II Guerra Mundial, recebeu a homenagem da família Pol Roger com o renomadíssimo Pol Roger Cuvée Winston Churchill Vintage.

clique na imagem para ampliar
319 Villages produzem uvas para a elaboração do Champagne. Destes, somente 17 são classificados como Grand Cru
Inventado?Na realidade, o Champagne não foi inventado e, sim, se autoinventou. Todos os vinhos começam a borbulhar quando as uvas são prensadas. Fungos e outros ativos das cascas das uvas entram em contato com o açúcar do suco, convertendo-o em álcool e gás carbônico. Esse processo é conhecido como fermentação. Em regiões muito frias como a de Champagne, os fungos ficam inativos durante o inverno, antes que todo açúcar seja fermentado e convertido em álcool. Na primavera, eles se reativam e continuam a agir sobre o açúcar não convertido, dando origem a mais álcool e gás carbônico, que emergem sob a forma de bolhas. Na produção do Champagne, a segunda fermentação sempre ocorre na garrafa. Esse método de produção é conhecido como método clássico ou Champenoise.
Uvas e estilos
Só há três variedades de uvas permitidas na produção do Champagne. Duas são tintas, a Pinot Noir e a Pinot Meunier, e uma branca, a Chardonnay. A maioria dos espumantes produzidos nessa região é elaborada com o blend dessas três uvas. O grande volume de produção dessa região é dos Champagnes denominados Brut, que são elaborados com essas castas ou uma combinação delas. Esses vinhos não têm safra definida, pois são elaborados por uma seleção de três ou mais safras normalmente.

Podemos encontrar ainda os extraordinários Champagnes Blanc des Blancs ("branco de brancas") elaborados com 100% de Chardonnay e também alguns Blanc de Noirs ("branco de negras") produzidos a partir de 100% Pinot Noir e/ou Pinot Meunier. Esses últimos são mais raros e não tão requintados quanto os primeiros. Tanto Blanc des Blancs quanto Blanc des Noirs podem ser safrados ou não.
Antes de citar os safrados, chamados de Millésimes ou Vintage, não podemos deixar de mencionar os intrigantes, sensacionais e caríssimos rosés. Esses Champagnes são produzidos na maioria das vezes por adição de vinho tinto junto ao Champagne. Algumas casas, contudo, produzem Champagne Rosé a partir de uma maceração mais longa com as castas tintas da região. O mais célebre de todos os elaborados com maceração de uvas tintas é o rosé da Laurent Perrier, um clássico rosé não safrado, cheio de vida, corpo e intensidade.
Champagnes geralmente são elaborados com o blend de três uvas
Dos Millésimes, que são rótulos só produzidos em safras excepcionais, temos duas grandes categorias do ponto de vista mercadológico. Os Vintage ou Millésimes e, na maioria das grandes casas, os Prestige ou Luxury Cuvées, que nada mais são que o melhor vinho produzido por uma determinada casa. Como exemplo, o famoso Champagne Dom Pérignon, que é o mais importante da casa Moët & Chandon. Algumas casas ainda produzem outros estilos e categorias, tais como: Extra Brut, Extra Sec, Brut Nature e Demi-sec, dentre outros, sendo esse último um Champagne que pode ser considerado doce.

Vinhedos Grand Cru em Champagne
O conceito de Grand Cru nasceu no início do século passado (por volta de 1920) na região de Champagne. Na ocasião foi criado o Échelle desCrus ("escala de vinhedos"), que classificou as vilas (Villages) que produziam uvas para elaboração do Champagne. As vilas que recebiam o melhor "rating" tinham preços mais altos.

Toda a região vinícola demarcada de Champagne pagne abrange cerca de 33 mil hectares de vinhas. No total 319 Villages produzem uvas para a elaboração do espumante. Esses vilarejos se dividem da seguinte maneira: 258 classificados como Crus AOC ("Appellation d'Origine Controlée"), 44 classificados como Premiers Cru e somente 17 classificados como Grand Cru, sendo que esses 17 Grand Cru eram somente 12 no início do século, quando da criação da Échelle des Crus. A adição de mais cinco vilarejos como Grand Cru na lista atual ocorreu em 1985. Para se ter uma ideia, essas 17 vilas classificadas como Grand Cru representam menos de 9% de todo o território de uvas classificadas para produzir Champagne.
Os Villages classificados como Grand Cru na região de Champagne são: Ambonnay, Avize, Ay, Beaumont-sur-Vesle, Bouzy, Chouilly, Cramant, Louvois, Mailly Champagne, Le Mesnil-sur-Oger, Oger, Oiry, Puisieulx, Sillery, Tours-sur-Marne, Verzenay e Verzy.

O conceito de Grand Cru nasceu por volta de 1920, em Champagne, quando se criou o "Échelle des Crus" (escala de vinhedos)
São desses vilarejos que provém a melhor fruta de toda a região de Champagne e são desses Villages Grand Cru os mais espetaculares Champagnes do mundo. E o mais mítico Champagne de todos é o Salon, um Blanc de Blancs, produzido com uvas de Le Mesnil-sur-Oger. Já o mais caro de todos os Champagnes disponíveis no mercado hoje é de Ambonnay, mais precisamente o Krug Brut Blanc de Noirs Clos d'Ambonnay, que teve seu primeiro vinho lançado recentemente, da safra 1995. O preço? US$ 3.500 por uma garrafa de 750 ml (preço-base nos Estados Unidos). Aliás, um preço fora de propósito para um Champagne.

Estratégia mercadológica do produtor
Como o Champagne é um vinho em que a assemblage é o segredo, muitos produtores preferem utilizar mesclas de vinhos de diversos vilarejos e ainda de diferentes estirpes. Nos grandes produtores, é mais comum se explorar a marca e o estilo do vinho e não a procedência das uvas. Outros, mais notadamente os produtores de menor porte e não tão famosos, fazem questão de explicitar (publicar claramente no rótulo) que seu produto final é Grand Cru.

Podemos ter um Champagne produzido por uvas Grand Cru e com o registro Gran Cru no rótulo de qualquer estilo: Brut, Rosé, Blanc de Blancs, Millésime, Prestige Cuvée etc.
Não há como negar que, na hora de comprar um Champagne, esse conceito deva ser levado em consideração. Normalmente, ao adquirir um Champagne Grand Cru você tem uma "garantia", mas não podemos dizer de maneira afirmativa que um Champagne pagne Grand Cru é sempre melhor que um Premier Cru ou que um Cru Village, ou um blend deles. ( da revista adega ).

domingo, 27 de novembro de 2011

Pra beber e viver melhor


Em setembro de 2010, foi publicado o mais longo estudo já realizado sobre a relação do álcool com a longevidade. Mesmo sabendo que a medicina não é uma ciência totalmente exata, a pesquisa dos cientistas das universidades do Texas Austin e de Stanford serviu de "atestado final" para comprovar que o consumo moderado de álcool aumenta a longevidade.
Ao longo dos anos, diversos levantamentos já indicavam isso, mas a metodologia dessa pesquisa - diferentemente das anteriores - tentou excluir a influência de qualquer fator externo, como doenças crônicas preexistentes e questões psicológicas até mesmo no grupo dos abstêmios; e assim, o resultado foi que quem consome álcool moderadamente vive mais do que quem bebe muito e do quem não bebe nada.
Essa mesma pesquisa ainda deu claros indícios de que o vinho possui mais propriedades que fazem bem à saúde em comparação com outras bebidas - mostrando que não é o álcool o único fator a ser considerado quando se trata de longevidade e diminuição do risco de doenças. Apesar de não ser o foco desse estudo, as análises indicavam que o vinho levava vantagem em relação aos destilados, por exemplo, e isso se devia à presença de alguns polifenóis cuja atuação no organismo humano vem sendo amplamente estudada.
Um deles e provavelmente o mais famoso é o resveratrol. Esse componente importante do vinho - com maior presença nos tintos - é uma coqueluche entre a comunidade científica ultimamente. Depois de diversos estudos, pesquisadores começaram a notar que ele atuava de forma a proteger diversas áreas do corpo humano, mesmo contra o câncer. Essa propriedade, aliás, tem sido a mais decantada, observada e analisada pelos médicos, que estão incessantemente na busca de um tratamento eficiente para essa doença que ceifa tantas vidas no mundo.
Sendo assim, se a pesquisa norte-americana divulgada no fim do ano passado atestou que o álcool é, sim, um fator de relevância para a saúde, ela também deu claros indícios de que o vinho apresenta propriedades ainda mais benéficas para o organismo. Portanto, os estudos sobre a bebida de Baco continuaram e, em 2011, outros dados importantes se somaram em prol das benesses do vinho para o homem.
ADEGA, então, resolveu ressaltar aqui algumas das mais importantes pesquisas envolvendo vinho publicadas em 2011.

PROTETOR SOLAR?

Um curioso estudo foi publicado no "Journal of Agriculture and Food Chemistry" em agosto. Segundo ele, alguns polifenóis das uvas têm efeito protetor em relação à exposição a raios UVA e UVB. Cientistas espanhóis que conduziram o estudo em laboratório demonstraram que a proteção para as células é realmente efetiva, representando uma redução de 50 a 60% no processo de degeneração. Contudo, eles afirmam que beber ou passar vinho na pele antes de ir para a praia não vai ajudar, pois a pesquisa servirá para as empresas de cosméticos desenvolverem algo baseado nos polifenóis das uvas.



PARA OS OSSOS

Um estudo australiano publicado em maio, feito com 900 pacientes durante dois anos, apontou que o consumo de vinho tinto aumenta a densidade mineral dos ossos, fortalecendoos. O vinho, em si, não apresenta os minerais necessários para o desenvolvimento do tecido ósseo, porém é um elemento capaz de manter a concentração de minerais e, assim, diminuir o risco de problemas como osteoporose, por exemplo. A pesquisa indica ainda que a boa relação entre vinho e ossos mais fortes é diretamente proporcional ao consumo moderado. Além disso, o vinho, nesse caso, apresentou vantagem para os homens, mas não para mulheres.


MENOS PESO

Em agosto, cientistas da Universidade de Navarra, na Espanha, publicaram os resultados de um estudo envolvendo álcool e ganho de peso. A pesquisa, como era esperado, aponta que o consumo de álcool ajuda no ganho de peso (já que cada grama de álcool tem cerca de 7 calorias) especialmente naquelas pessoas que bebem destilados e cerveja. 
Contudo, o estudo mostrou que consumidores moderados de vinho - que bebem de uma a duas taças por dia - ganham menos peso do que a média da população em geral. Os que bebem mais do que essa quantia estão no grupo que ganha peso acima da média. Entre os 9.318 pacientes analisados, o grupo de consumidores de vinho foi o que menos engordou anualmente em comparação com as pessoas que bebem cerveja ou destilados. Segundo os pesquisadores, a razão para esse menor ganho de peso com o vinho ainda não está totalmente explicada, pois pode ter a ver com uma dieta mais balanceada dessas pessoas, ou seja, não se deve considerar vinho um "emagrecedor". Mas "se você toma álcool, é melhor que ele seja na forma do vinho", apontou um dos autores da pesquisa.



EXERCÍCIO, DIETA E VINHO

Em setembro, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças norte-americano (cuja sigla em inglês é CDC) publicou a análise dos dados de uma pesquisa sobre taxas de mortalidade, que contou com mais 20 mil participantes entre 1988 e 94, e outra com 16.958 pessoas em 2006. Nessa análise, os cientistas compararam comportamentos de risco com as taxas de mortalidade e mapearam algumas boas atitudes em relação à saúde que podem melhorar a longevidade. Não fumar, fazer exercícios regularmente, manter uma dieta saudável e consumir álcool moderadamente estavam entre os fatores analisados. Segundo esse estudo, pessoas que compartilhavam desses comportamentos combinados tinham sua taxa de mortalidade reduzida em 63%. Os pesquisadores tentaram isolar o consumo de álcool da equação e verificaram que a diminuição da taxa de mortalidade continuava considerável (55%), porém menor do que quando o álcool em moderação está presente.




RESVERATROL NÃO É O MUST

Um recente estudo divulgado pela "University College London" contestou a teoria de que o resveratrol não seria o elemento fundamental para o aumento da longevidade apontado nas pesquisas alardeadas mundo afora. Segundo os pesquisadores, uma análise minuciosa mostrou que esse polifenol - que ativa uma classe de enzimas que teoricamente aumentam a expectativa de vida - não é o responsável por esse benefício, já que essas enzimas não teriam a propriedade que delas se espera. No entanto, ele não questiona os benefícios para a saúde do resveratrol, já que as enzimas ativadas possuem propriedades de combate a doenças.



ANTI-INFLAMATÓRIO

A Universidade de Glasgow publicou uma pesquisa, em agosto, que indica propriedades anti-inflamatórias do resveratrol, que poderia ser usado para tratar processos inflamatórios perigosos, como apendicite, por exemplo. Em testes de laboratório, ratos tratados com o polifenol presente no vinho não apresentaram quadros inflamatórios, pois impediu que duas moléculas que estimulam a inflamação fossem criadas.



PEIXE COM VINHO

Harmonizar peixe com vinho nunca foi tão bom. Pelo menos é o que se depreende de uma pesquisa de universidades francesas publicada no "Current Pharmaceutical Biotechnology" no fim de 2010. Segundo ela, quem consome vinho e ácidos Omega-3 têm 20% mais de tecido cardíaco do que o convencional. Ainda de acordo com o estudo, consumidores moderados de vinho apresentam maiores taxas de Omega-3 no corpo do que os abstêmios. A mesma propriedade não foi encontrada em pessoas que consumiam cerveja e destilados.




BOM PARA A CABEÇA

Diversos departamentos de psiquiatria de universidades alemãs divulgaram um estudo, em março, sobre a relação entre o consumo de álcool e seus efeitos protetores contra a demência mesmo depois dos 75 anos. A pesquisa, que avaliou 3.202 pacientes durante três anos, mostra que o consumo diário e moderado de álcool reduz o risco de demência em 30% em média, comparado com os abstêmios. O mesmo tipo de resultado foi observado em relação ao mal de Alzheimer - um tipo específico de demência. Mesmo quando excluídos fatores de relacionamento pessoal ao consumo de álcool - como vida social ativa, por exemplo -, mostrou-se que o risco foi menor em quem bebia moderadamente. Além disso, quando analisado o vinho separadamente, também apresentou vantagem na diminuição do risco de demência.



DIABETES

Cientistas do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue e do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos publicaram um estudo (em setembro) sobre os fatores de risco de diabetes, uma doença que vem se alastrando no país. Eles analisaram mais de meio milhão de pessoas entre 50 e 71 anos. Entre os fatores observados juntamente com consumo moderado de álcool estão: bom índice de massa corporal, não fumante, atividade física adequada e dieta saudável. Entre pacientes que cumpriram esses cinco tópicos - cerca de 4% dos homens e 2% das mulheres - os resultados foram assombrosos: 72% de redução de risco entre os homens e 84% entre as mulheres. Entre todos os fatores analisados, o consumo moderado de álcool representou uma diminuição de risco em 19% para homens e 37% para as mulheres. Além desse, outros três estudos recentes vincularam o consumo moderado de álcool com a redução do risco de diabetes, apesar de nenhum deles confirmar qual mecanismo provoca isso. Algumas pesquisas indicam que a relação entre álcool e insulina aumentaria a sensibilidade do hormônio, ajudando-o a fazer com que as células obtenham glucose do sangue.



TREMORES

Em abril, pesquisadores italianos publicaram no jornal médico "Movement Disorders" uma pesquisa que indica que o consumo de vinho diminui a probabilidade de idosos apresentarem tremores essenciais, uma desordem nos movimentos de origem neurológica. O estudo apontou que o risco de apresentar tremores diminui em 86% quando há consumo diário de vinho na dieta. Além disso, os maiores beneficiados apresentavam consumo durante cerca de 30 anos. Contudo, como o estudo apresentou algumas anomalias nos resultados, os pesquisadores preferiram ser cautelosos ao fazer o vínculo vinho-diminuição de tremores.




CÂNCER DE MAMA

A última pesquisa relevante publicada antes do fechamento desta edição de ADEGA relaciona o resveratrol com a interrupção do crescimento de células cancerígenas na mama. Esse efeito deve-se ao bloqueio da ação do estrogênio pelo polifenol. O estudo, realizado por pesquisadores norte-americanos e italianos, foi publicado em outubro e aponta que o resveratrol é uma potencial ferramenta farmacológica quando o câncer de mama se torna resistente à terapia hormonal. Apesar do resultado animador, os cientistas dizem que é preciso uma avaliação médica minuciosa antes de as pessoas começarem a tomar suplementos com resveratrol ou mesmo beber vinho para tratar câncer.



PARA O SEDENTÁRIOS

Um estudo publicado pelo jornal do Federation of American Societies for Experimental Biology revelou que o resveratrol pode ajudar os sedentários. De acordo com a pesquisa, ratos que não receberam doses do polifenol desenvolveram uma perda de massa e força muscular e óssea, além de resistência à insulina - que pode ser considerado um começo de diabetes. O grupo que foi tratado com o resveratrol, contudo, não apresentou esse quadro. Segundo os cientistas, o resveratrol não substitui os exercícios físicos, mas reduz a taxa de deterioração de músculos e ossos.



ASMA

Recente pesquisa de cientistas do Bispebjerg Hospital na Dinamarca aponta que o consumo moderado de vinho pode diminuir o risco de asma. O estudo com mais de 19 mil pessoas entre 12 e 41 anos afirma que menos de 4% dos que consomem vinho regularmente desenvolveram asma. Em comparação, mais de 6% dos abstêmios apresentaram o problema. E, por fim, cerca de 4,5% dos consumidores pesados tiveram os sintomas ( da Revista Adega )





domingo, 22 de maio de 2011

Uma seleção com 20 vinhos chilenos


Ao planejar e preparar a degustação de ícones chilenos para esta edição, foi impossível deixar de se perguntar: “Afinal, o que são vinhos ícones?” Na definição da arte pictórica religiosa, ícone é uma pintura sacra com a representação da mensagem cristã descrita por palavras nos Evangelhos. Nessas representações “sagradas”, as cores carregam importante parte de simbolismo e o vermelho é, sem dúvida, a cor mais viva presente nos ícones. É a cor do humano e do sangue dos mártires, daqueles que preferem entregar a própria vida para aquilo em que acreditam, para que a essência dessa verdade seja preservada. Sendo assim, é justo categorizar como ícones os grandes vinhos que, representando a mensagem sagrada de seus terroirs, foram criados para transcender e trilhar o caminho da busca da perfeição a frente dos demais.


Escolha difícil 
Nosso primeiro desafio foi escolher os vinhos que poderiam ostentar a nomeação de ícones sem sombra de dúvida – correndo o risco de deixar alguns dignos do mesmo título de fora, mas de não abrir espaço para a participação de vinhos que não fossem merecedores desse título. Optamos por focar nos tintos, usualmente vinhos que têm maior possibilidade de enfrentar e mesmo evoluir com os anos, e também compararmos cortes e varietais das emblemáticas chilenas Cabernet Sauvignon, Syrah e Carménère, com espaço para outros destaques específicos, como Malbec, por exemplo.


Os selecionados foram: Almaviva 2001, Cabo de Hornos 2006, Carmen Gold Reserve Cabernet Sauvignon 2005, Clos Apalta 2008, De Martino Gran Familia 2006, Domus Aurea 2007, Don Maximiano Founder’s Reserve 2006, Don Melchor 2006, El Principal 2006, EQ Syrah 2008, Herencia Carménère 2007, House of Morandé 2003, Manso de Velasco 2007, Montes Alpha M 2006, Pangea 2006, Santa Helena Don 2008, Santa Rita Casa Real 1995, Seña 2006, Tara. Pakay 2007 e Viu 1 2006.

No momento da verdade, como se comportariam estes ditos “ícones” em uma avaliação as cegas – como é nosso padrão – performada por nossos degustadores Eduardo Milan e Hong Sup Kim? Podemos assegurar que este não foi um dos trabalhos mais difíceis que Milan e Kim enfrentaram na vida, como comprovaram os sorrisos ao final da degustação.
Um único vinho dos 20 vinhos que buscamos não estava disponível para a degustação, e então utilizamos a avaliação, ainda inédita em ADEGA, feita por Luiz Gastão Bolonhez na data do lançamento do vinho no Brasil.

Após a degustação de cada flight (grupo de vinhos degustados num conjunto sequencial) e notas dadas, presenciamos a usual troca de impressões sobre os vinhos, mas, desta vez, apenas elogios. Estava claro, pelos comentários e pelas notas, que todos eram gigantes e mereceram estar ali, como representantes do que de melhor seu país poderia oferecer. Todos os vinhos receberam 91 pontos ou mais e, conforme o padrão de ADEGA, 13 foram considerados ótimos e 7 extraordinários.
A princípio, contar com vinhos de todas as safras de 2001 a 2008 – com exceção da safra de 2004 e a presença de um 1995 – impossibilitava a comparação direta entre os vinhos, mas ganhamos muito, pois, mais do que promover um duelo de gigantes, nosso objetivo era ver ser todos mereceriam ou não o título de ícones, além de avaliar as diversas safras, a capacidade de guarda e a dinâmica de evolução.
Os vinhos estavam todos deliciosamente bons para consumo, mas foi surpreendente concluir que os representantes das safras mais antigas se saíram muito bem. Vinhos com até 10 anos, que responderam espetacularmente ao tempo e que prometem ainda bons anos de evolução. Na mente ainda está vívida a lembrança dessa degustação e de cada um desses vinhos que, como as melhores peças sacras, capturam a alma e parecem brilhar mais com o tempo (( da revista Adega).


quarta-feira, 11 de maio de 2011

Saiba como abrir um vinho usando um saca-rolhas tipo pinça

Às vezes, por mais que você tenha cuidado na hora de usar um saca-rolhas convencional para abrir uma garrafa, pode acontecer de a rolha quebrar. Em vinhos muito antigos, cujas rolhas tendem a estar bastante desgastadas pelo tempo, isso pode ser um problema. Contudo, é para evitar esses transtornos que existe o saca-rolhas tipo pinça. Com duas lâminas finas, uma um pouco maior do que a outra, este abridor é desenhado para minimizar o problema da quebra das rolhas. A técnica para abrir com ele é mais complicada do que com os saca-rolhas convencionais, mas a chance de a rolha se partir é quase nula. Sendo assim, explicamos como usá-lo: ( revista adega).
1 - Tire o lacre e limpe o gargalo para retirar qualquer tipo de sujeira que haja sobre a rolha.
2 - Você deve ser delicado ao manusear as pinças. Tente inserilas cuidadosamente entre a rolha e o vidro do gargalo da garrafa. Provavelmente será preciso fazer pequenas rotações para que o encaixe seja perfeito. Mas muito cuidado para não enfiar a rolha gargalo abaixo.
3 - Com movimentos suaves e pequenas rotações para que a rolha desprenda do vidro, vá retirando-a aos poucos. Parece simples, mas requer sutileza.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Como são feitos os vinhos tintos e brancos

Uma curiosidade que pode deixar de existir ao ver esse interessante infográfico , que mostra como são produzidos e engarrafados os vinhos tintos e brancos ( ao abrir o infográfico, clique em tinto ou branco).

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Como uma degustação foi capaz de mudar o mapa da vitivinicultura mundial?

Reprodução da pintura do mestre flamengo, Peter Paul Rubens, representando Paris e as três deusas, que tentam seduzi-lo para ficar com a maçã dourada. Segundo a mitologia, foi a partir da escolha de Paris que teve início a Guerra de Troia
Para quem gosta de mitologia, o Julgamento de Paris representa o começo da Guerra de Troia. Diz a lenda que Paris, príncipe de Troia, teve a incumbência de escolher entre Hera, Atenas e Afrodite, qual era a deusa mais bela - que, assim, receberia a "maçã dourada" (dita maçã da discórdia). Cada uma delas usou de suas artimanhas para convencer o príncipe, que acabou por escolher Afrodite depois de ela lhe prometer o amor da mulher mais bela da terra, Helena de Esparta, esposa do rei Menelau. Assim começaria a narrativa da mais famosa guerra do mundo.
"Steven (Spurrier) certamente não quis causar uma guerra entre Estados Unidos e França. Ele só queria introduzir os vinhos californianos no país, que eram pouco conhecidos pelos entendidos", afirma George M. Taber, único jornalista presente no evento que viria a ser conhecido como "Julgamento de Paris". Mas foi a partir de um brevíssimo artigo escrito por esse "Homero" moderno e publicado na prestigiada norte-americana revista Time, na segunda- feira, 7 de junho de 1976, que se desencadeou uma das maiores revoluções da vitivinicultura mundial, com a quebra do paradigma em torno do sagrado terroir francês e de que somente ele era capaz de produzir vinhos de excelência.

Antes do Julgamento, o mundo do vinho estava dividido entre a França - que produzia os santos néctares consagrados universalmente - e o resto do planeta, que tentava copiar os franceses de alguma forma. E, segundo os próprios franceses e grande parte da crítica, sem sucesso. Assim, esse evento, de resultado totalmente inesperado, fez com que a inabalável crença da superioridade francesa ruísse e abrisse caminho para o que temos hoje, ou seja, vinhos de excelente qualidade produzidos em quase todos os terroirs do globo, vinhos que podem até competir em pé de igualdade com os ícones da França. Se não fosse pelo Julgamento, os vinhos do Novo Mundo ainda seriam vistos como de segunda linha.

Uma vitória improvável
A ideia de contrapor franceses e norte-americanos em degustação foi de Patricia Gallagher, então sócia de Spurrier - na época era apenas dono de uma loja de vinhos em Paris e de uma escola para cursos sobre esta bebida. Eles então queriam aproveitar como mote a celebração dos 200 anos da Independência dos Estados Unidos. Para preparar o evento, foram à Califórnia provar os vinhos pessoalmente. Muitos dos vitivinicultores não quiseram recebê-los. Vários ficaram aborrecidos com a "infeliz" ideia de "humilhar" os norte-americanos justamente no ano de seu bicentenário. Ou seja, nem eles acreditavam que seus vinhos poderiam fazer frente aos franceses.

"Planejei a degustação para chamar a atenção para a qualidade do vinho californiano. Teria ficado feliz com um segundo e quarto lugares, não esperava duas primeiras colocações! É importante deixar claro que minha ideia original não incluía uma degustação às cegas comparativa. O evento só tomou esse formato depois de eu perceber que apenas uma pessoa - Aubert de Villaine, que era casado com uma californiana - já havia provado os vinhos da região, e que o resto dos jurados veria esses vinhos de forma errada, como vindos de uma região ao norte do México. Então, a degustação às cegas foi o mais apropriado.

Jurados

Pierre Bréjoux- inspetor geral das AOC (Appellation d'Origine Contrôlée) francesas, que controla a produção dos principais vinhos do país.

Michel Dovaz- professor da Académie du Vin.

Claude Dubois-Millot-diretor de vendas do GaultMillau, guia de restaurantes, vinhos,hotéis etc na França

Odette Kahn- editora da Revue du Vin de France, a principal revista de vinhos do país 
Raymond Oliver- proprietário e chefe do Le Grand Véfour, um dos mais celebres restaurantes franceses, datando do século XVIII.
Pierre Tari- proprietário do Château Giscours e secretário geral da Associação dos Grands Crus Classés.
Christian Vannequé- sommelier do La Tour d'Argent, provavelmente o mais famoso restaurante de Paris.
Aubert de Villaine- co-proprietário do Domaine de La Romanée-Conti.
Jean-Claude Vrinat- proprietário do Taillevent, restaurante três estrelas de Paris.


Uma derrota histórica
Às 3h da tarde daquele fatídico 24 de maio de 1976, nove jurados de renome (ver tabela) se reuniram no Hotel InterContinental para avaliar Chardonnays e Cabernet Sauvignons. Não imaginavam que a hegemonia do vinho francês estava "ameaçada". Assim que foram servidos os brancos, logo uma pequena confusão se instalou, com alguns degustadores confundindo vinhos californianos com franceses e vice-versa. O resultado: Chateau Montelena em primeiro lugar. Mais do que isso, dos cinco primeiros lugares, três eram norte-americanos. Mais do que isso ainda, nenhum dos jurados deu o primeiro lugar a um francês, todos fi caram entre Montelena (seis dos nove) e Chalone (três).

Aí começava a ruir o trono da França. "Alguns jurados já tinham tido contato com os vinhos da Califórnia, mas a maioria não. Talvez por não estarem familiarizados, eles pensaram que seria como os vinhos da Argélia ou de outros lugares quentes; rude e não muito sofisticado. Eles subestimaram a qualidade das bebidas californianas", atesta Taber, único jornalista a comparecer. "Se o vinho fosse bom, todos pensavam que era francês. Montelena e Stag's Leap também tinham um estilo mais ou menos parecido com os da França", lembra Spurrier.

Para Bo Barret, enólogo chefe de Montelena, filho de Jim Barret, proprietário da vinícola, "o truque era se ocultar, apenas fazer um bom vinho com pureza, sabores pungentes e ótimo equilíbrio. Você precisa lembrar que a ideia da degustação não era dizer quais vinhos eram da Califórnia ou da França. O objetivo era escolher o mais saboroso"
Quando o resultado do flight de brancos foi anunciado por Spurrier, surpresa geral. Assim que os tintos foram servidos, a coisa ficou mais séria. Os comentários mais sisudos. As caras mais fechadas. Depois de dadas as notas, o resultado novamente foi uma vitória californiana, com o Cabernet da Stag's Leap. Porém, dessa vez, a pontuação foi mais apertada e o Stag's Leap só foi o favorito de um dos jurados. Sendo o Haut-Brion o preferido de três. Mayacamas e Ridge Monte Bello também estiveram no topo da lista de dois degustadores (veja tabela de resultados).


"Não esperava que o Julgamento fosse tão importante, mas ele se mostrou um divisor de águas na história do vinho"

O início da revolução

Assim que o evento acabou, alguns se revoltaram. "Se não houvesse um jornalista na degustação seria muito mais fácil para qualquer um negar que aquilo de fato ocorreu, ou que ocorreu de outra maneira.

Tive sorte de ser esse jornalista, de estar em Paris durante o Julgamento. Nunca imaginei que o evento fosse ter o impacto que teve. Não posso alegar que sabia disso antes de a degustação começar ou até mesmo imediatamente após seu final. A força disso tudo só ficou clara depois de algum tempo", conta Taber, hoje aos 68 anos, e que no dia seguinte ao evento completou 34.

Caso o editor da Time em Nova York não tivesse gostado da história, o mundo do vinho permaneceria o mesmo. Contudo, dias depois, lá estava a história curtíssima, sem qualquer destaque, publicada na revista (cuja capa tratava de problemas no exército norte-americano) com o nome de Julgamento de Paris. Poucos seriam capazes de prever o que poucas linhas de texto causariam na vitivinicultura mundial. Subitamente, os vinhos de Montelena desapareceram das prateleiras norte-americanas, mas isso seria apenas a reação inicial de uma revolução que estava prestes a se desenrolar. "Não esperava que o resultado do Julgamento fosse tão importante, mas ele se mostrou um divisor de águas na história do vinho", afirma Spurrier. "Recebi muita reação das pessoas na Europa. Na semana seguinte, estava em Bruxelas para outra pauta, e lembro de muita gente perguntando sobre isso. Aquilo foi fora do comum. Para os editores e para mim, era apenas mais uma história. Ninguém, especialmente eu, percebeu naquele momento que aquilo se tornaria um evento histórico", acrescenta Taber.


Acima, a capa da Time em que saiu o artigo de Taber - de uma única página e sem assinatura do autor. O artigo foi curto e sem grande destaque na edição, porém foi o que bastou para causar uma revolução no mundo do vinho. Ao lado, a garrafa do Cabernet da Stag's Leap, que superou, entre outros, dois Premiers Grand Cru de Bordeaux, como Mouton Rothschild e Haut-Brion, ambos da aclamada safra de 1970
Segundo as palavras do jornalista, no dia anterior à degustação, a França estava no pedestal e enólogos de outras áreas tinham ambições modestas. "No dia seguinte, as coisas começaram a mudar." A repercussão do evento foi tamanha que pôs em xeque o reinado francês quando se tratava de vinhos de alta gama. Naquela época, ninguém duvidava que era possível fazer bons vinhos correntes em países fora da Europa. Contudo, o ideal e a mítica do vinho francês eram tamanhos que poucos se julgavam capazes de desafiá-los quando o assunto eram vinhos de excelência. O "sagrado" terroir francês era inquestionável.


Sem querer, a Califórnia - cuja indústria vinícola na década de 1970 ainda era muito incipiente, apesar dos grandes progressos feitos no Napa Valley, especialmente com a implantação das técnicas e pesquisas da Universidade da Califórnia Davis (UC Davis) - se meteu numa "guerra" que teve um resultado inesperado e marcante.


A partir dessa data, o mundo abriu os olhos para todos os países produtores de vinho como potenciais terroirs para produzir vinhos top. "A degustação encorajou os produtores de todos os cantos a fazer vinhos melhores. Os vinicultores diziam que se a Califórnia conseguia produzir vinhos de qualidade superior aos da França, então eles também poderiam, desde que adotassem procedimentos similares aos dos dois países", garante Taber.

Para Taber, outro benefício direto do Julgamento foi a "melhora impressionante na qualidade dos vinhos mais baratos. Antigamente, os vinhos comuns não eram muito bons". Já Spurrier aponta que "a importância do Julgamento está no fato de essas degustações de 'vinhos desconhecidos contra vinhos famosos' serem totalmente aceitas agora. As degustações mostraram que, para agregar reconhecimento a um produto, ele tem que ir contra os valores de referência".

Campeão do Chardonnay queria ser campeão do Cabernet? Segundo Bo Barret, do Chateau Montelena, ter vencido entre os Chardonnays no Julgamento de Paris não mudou a mentalidade da vinícola, que, na verdade, queria era se tornar referência entre os Cabernet Sauvignons do mundo. "O sucesso de nosso Chardonnay não mudou nossa determinação e nossos planos de fazer um Cabernet Sauvignon de nível mundial. É possível que, dado o sucesso de nosso Cabernet, que é independente do Julgamento de Paris, Montelena talvez fosse um 'Premier Cru' californiano, produzindo somente Cabernets, similar aos Châteaux de Bordeaux. Não foi exclusivamente o Julgamento que nos alçou à posição que estamos hoje. Em 2005, Montelena era muito mais conhecido e respeitado por seus tintos, que dominavam aqui desde 1978, e que significam cerca de 60 a 75% da produção atual. Então, não é de se estranhar que digamos que há uma probabilidade razoável de que olhemos da mesma maneira para o sucesso dos nossos tintos", revela o enólogo norte-americano.

Depois do Julgamento, todas as grandes companhias passaram a olhar para o mundo todo como sendo um grande campo de cultivo


Mundo aberto para o vinho
"A indústria de vinhos norte-americana, mais exatamente a da Califórnia, desenvolveu um estilo próprio. Na época do Julgamento, os norte-americanos estavam tentando 'copiar' o estilo francês, e o fizeram muito bem", afirma Taber. E isso é confirmado com o que teria dito Joe Heitz, proprietário da Heitz Cellars na época quando Spurrier veio selecionar seu vinho: "Meursault Charmes é o vinho favorito da minha esposa, e é o que tento fazer aqui".

Segundo o jornalista, mais tarde, influenciados pelo estilo de vinho que Robert Parker gosta, os vinicultores norte-americanos começaram a produzir vinhos mais ousados. "Não é todo mundo que gosta desse estilo, mas é diferente", diz Taber. Já Spurrier aponta que um dos prejuízos do Julgamento foi exatamente a falta de expressão dos vinhos de alguns produtores. "O sucesso dos vinhos da Califórnia subiu na cabeça dos produtores e fez com que os preços subissem muito, e, na maioria das vezes, eles não valem tudo isso. Esses vinhos e de muitos outros países do Novo Mundo, são feitos para impressionar, ao invés de 'expressar', e essa abordagem é completamente equivocada", lamenta o crítico britânico.

No entanto, assim que a poeira baixou, os franceses começaram a aceitar melhor a redistribuição do mapa mundi dos vinhos e olhar para o que estava sendo feito ao redor do planeta. "Depois de a confusão ter acabado, a nova geração de produtores de vinho foi para a Califórnia para ver o que estava acontecendo, e o resultado disso foi uma certa descrença nos hábitos do passado", anota Spurrier. "O Julgamento abriu os olhos dos produtores europeus. Depois dele, inúmeras vinícolas francesas começaram a enviar gente aos Estados Unidos para ver o que acontecia lá. A consequência mais importante do Julgamento foi o Opus One, joint venture formada pelos Rothschild e Mondavi. Todas as grandes companhias internacionais passaram a olhar para o mundo todo como sendo um grande campo para se plantar", afirma Taber.


O Julgamento enfraqueceu o mito dos vinhos franceses mas, ao mesmo tempo, trouxe mais consumidores para o mundo do vinho


30 anos depois, Spurrier refez a degustação do Julgamento e o Ridge Monte Bello venceu, provando a longevidade dos vinhos do Novo Mundo
Ideal francês está morto?
Ninguém duvida da força que o Julgamento de Paris teve na vitivinicultura mundial. Tanto que, a partir daí, produtores do mundo todo começaram a pôr à prova seus vinhos. Em 2004, por exemplo, Eduardo Chadwick, da Viña Errazuriz, no Chile, resolveu promover a "Degustação de Berlim", em que opôs seis vinhos chilenos com grandes vinhos franceses e italianos. Diante de uma plateia atônita, Chadwick viu dois de seus vinhos vencerem a prova.

Dois anos depois, em 2006, foi a vez de Spurrier repetir a prova que havia feito 30 anos antes. "Refizemos o Julgamento simultaneamente em Londres e no Napa Valley. Os mesmos 10 vinhos tintos foram provados por nove degustadores (Christian Vannequé e Michel Dovaz, dois dos jurados originais de 1976 estavam no Napa e em Londres, respectivamente). E os vinhos da Califórnia ficaram com as cinco primeiras colocações", lembra consultor editorial da revista inglesa Decanter.

Na ocasião, os mesmos tintos, das mesmas safras da prova de 1976 foram degustados e, desta vez, venceu o Ridge Monte Bello 1971. Spurrier fez esta "contraprova" para tentar calar os críticos que o acusavam de comparar "maçãs com laranjas" e garantiam que, em 1976, os vinhos franceses ainda não demonstravam todo o potencial que poderiam e que os californianos não aguentariam a prova do tempo. "Se você comparar vinhos da mesma variedade e das mesma safra, tudo o que está isolando é o terroir e o processo de produção. Portanto, a comparação é totalmente válida", garante o britânico.

Ele, porém, não acredita que os vinhos franceses tenham deixado de ser um referencial de qualidade para o resto do mundo: "A meu ver, a França ainda é referência nos vinhos do Novo Mundo. O ideal dos vinhos franceses ainda está longe de estar morto", afirma. Ponto de vista compartilhado por Taber, que diz: "O vinho francês ainda está entre os melhores do mundo, mas a França não é mais considerada o único local onde se faz excelentes vinhos. A Itália e a Espanha produzem ótimos vinhos. O Novo Mundo está produzindo vinhos marcantes. Isso não acontecia na década de 1970. Lá, era a França que produzia boas bebidas".

E Taber finaliza defendendo o Julgamento mais uma vez: "Acredito que esse evento tenha sido benéfico para todo o mundo do vinho. Ele pode ter enfraquecido o mito dos vinhos franceses e tê-los tirado de seu trono, mas, ao mesmo tempo, trouxe mais consumidores para esse mundo, fato que beneficiou a todos, inclusive os franceses" ( da revista Adega ).

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